“A Meia-Irmã Feia” uma crítica ao reflexo distorcido dos padrões de beleza
Numa releitura sombria de Cinderela, o longa norueguês transforma o conto de fadas em denúncia ao corpo perfeito e às pressões estéticas modernas.

O gênero body horror é usado há anos como forma de expressão para abordar temas envolvendo mudanças do nosso corpo. Seja em Alien, com um ser parasitoide como paralelo à violência da gravidez, o descobrimento da sexualidade com a ânsia de devorar seu amor em Raw ou em Até os Ossos. Mais recentemente, tem servido como denúncia ao mito do corpo perfeito.
Com o crescimento da exposição em redes sociais e de megacorporações inconsequentes em relação aos danos causados ao seu público, já havia passado a hora da versatilidade do terror se apossar das obsessões estéticas impostas.
A Substância usou essa incrível mistura de terror, estética e mensagem como base de exposição e denúncia aos padrões de beleza e ao etarismo na indústria de Hollywood. Mesmo seguindo como um sucessor em sua crítica, "A Meia-Irmã Feia" usa mais da dramaticidade e da sutileza para dar voz a essa tendência do horror corporal.
Um conto de fadas nada encantado
Nessa releitura da clássica história da Cinderela, acompanhamos o olhar de Elvira (Lea Myren), assim que sua mãe se casa com um homem supostamente rico, pai de Cinderela. Logo após o casamento, ele morre, revelando que estava tão pobre quanto ela. À beira da miséria, a esperança de ambas se apoia em achar um par rico no baile real, mas Elvira terá que competir com sua bela meia-irmã (Thea Sofie Loch Næss) para conquistar o amor de sua maior obsessão: o príncipe.
A relação, que começa saudável, vai se tornando cada vez mais abusiva, muito pela pressão imposta pela matriarca da família, Rebekka (Ane Dahl Torp), que ao comparar Elvira expõe suas fragilidades, criando paranoias e inseguranças. Assim abrindo caminho para uma série de mudanças físicas, até com direito a uma rinoplastia medieval.
Apesar da breve comparação com o premiado A Substância, de Coralie Fargeat, aqui temos uma sutileza muito maior, sem se apoiar tanto em elementos do horror corporal. **Cenas grotescas **envolvendo o corpo estão sim presentes, mas em uma quantidade muito inferior, sendo mais adequado colocar "A Meia-Irmã Feia" próxima ao terror psicológico.
O que em nenhum momento é um demérito em uma produção de terror, o uso maior do abuso psicológico na personagem aproxima muito mais seu gênero da nossa realidade. A baixa autoestima, o body shaming e a compulsão pela magreza, que acabam sendo impostos, podem ser tão pesados quanto um gore gratuito.
![[Main Still] The Ugly Stepsister - still 1 - Copyright Marcel Zyskind - Actress Lea Myren.jpg](https://admin.geekcalendar.com.br/uploads/Main_Still_The_Ugly_Stepsister_still_1_Copyright_Marcel_Zyskind_Actress_Lea_Myren_cbefe2cd81.jpg)
**Mas que fique o aviso: **seu terceiro ato é extremamente forte, com direito a mutilação e uma cena específica capaz de revirar o estômago.
A estética adorável de um pesadelo
O elemento corporal será o mais chamativo para o público, mas a produção é extremamente rica em outros aspectos, como o figurino de época, as próprias atuações naturalistas, sem perder a caricatura dos personagens, e o mais encantador de todos, sua fotografia.
A diretora Emilie Blichfeldt, juntamente com a fotografia de Marcel Zyskind, fazem mágica com cenas completamente oníricas, como um sonho transportado diretamente para a tela dos cinemas. Usando de maneira inteligente o blur para dar um ar etéreo e a saturação de cores como verde, roxo e rosa para enfatizar o lúdico de um conto.
Fazendo brilhar ainda mais a diversidade do cinema estrangeiro, a produção, fruto de uma parceria entre Noruega, Dinamarca, Romênia e Polônia, grita autenticidade.
Mas, como toda artista obcecada com sua obra, a impressão deixada pelo final é que Emilie estava tão apaixonada pela própria história que sofreu para sequer largá-la. Seu último arco se prolonga e passa por vários possíveis finais, que poderiam inclusive encerrar com um impacto chocante, mas que, por sua persistência, perde aos poucos a força.
“A Meia-Irmã Feia” estreia dia 23 de outubro nos cinemas.
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